Entidades alertam para falta de clareza em rótulos e propaganda enganosa de alimentos não saudáveis

Sob o slogan ‘Você tem o direito de saber o que come’, campanha chama atenção para a questão da obesidade

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RIO — A obesidade é uma das principais epidemias da atualidade, alerta a Organização Mundial da Saúde (OMS). No ano passado, a doença atingiu mais de 650 milhões de pessoas no planeta. A prevalência de obesidade no Brasil aumentou quase cinco vezes entre os homens e mais do que duplicou entre as mulheres nos últimos 35 anos. Hoje, 57% da população brasileira tem excesso de peso. Diante deste cenário, a Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável está lançando nesta quarta-feira a campanha “Você tem o direito de saber o que come”, que foca na relação entre o excesso de peso e o consumo de alimentos não saudáveis, chamados por especialistas de “alimentos ultraprocessados”, estimulado por informações enganosas e pouco claras em seus rótulos.

O grande aumento na prevalência do excesso de peso é atribuído, sobretudo, a mudanças no padrão alimentar da população, destacando-se em particular a substituição de alimentos e preparações culinárias tradicionais dos brasileiros por produtos ultraprocessados e prontos para o consumo, como refrigerantes e outras bebidas açucaradas, biscoitos recheados, salgadinhos de pacote, macarrão instantâneo, sobremesas industrializadas etc. Apenas um a cada três adultos consome frutas, legumes e verduras regularmente. A substituição de almoço e jantar por lanches em sete ou mais vezes por semana por 14% dos brasileiros é outro indicador da diminuição da qualidade da alimentação no país. Tendência similar de aumento do consumo de alimentos ultraprocessados é observada entre adolescentes.

A campanha, desenvolvida pela Aliança, formada por instituições como o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), ACT Promoção da Saúde, Associação Brasileira de Nutrição (Asbran) e Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), começa com a exibição de um vídeo, logo mais à noite, em horário nobre da TV, mostrando uma família que, ao consumir produtos ultraprocessados apresentados como saudáveis, se alimenta essencialmente de açúcar e gordura sem ter consciência disso. Em uma metáfora, o filme mostra os ingredientes em excesso de alguns produtos que consumimos em nosso cotidiano: da caixa de suco que se diz “natural” cai açúcar refinado; da caixa do bolo que se vende como “caseiro”, sai um tablete de gordura.

“Fizemos um “raio x” dos alimentos não saudáveis”, afirma Inês Rugani, professora da UERJ e membro da Abrasco, acrescentando que, por meio de imagens fortes e a apresentação das consequências de forma direta, o objetivo é sensibilizar os espectadores e evidenciar a falta de informação clara e o marketing enganoso nas embalagens que vendem produtos nutricionalmente pobres como se fossem benéficos para a saúde.

A campanha tem a intenção de alertar a população sobre as reais características nutricionais de produtos ultraprocessados, que não destacam em suas embalagens o excesso de ingredientes como sódio, açúcar e/ou gorduras, levando os consumidores a fazer escolhas não saudáveis. Também tem a intenção de mobilizar a sociedade a apoiar a adoção de rótulos mais claros e a restrição de propagandas enganosas sobre alimentos, especialmente aquelas direcionadas a crianças. Vale lembrar que encontra-se em discussão na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) a revisão das normas de rotulagem nutricional.

A Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável defende a adoção de uma rotulagem nutricional frontal de advertência inspirada no modelo do Chile, entre outras recomendações, conforme proposta apresentada à Agência pelo Idec e UFPR. Uma consulta pública deve ser aberta pela Anvisa até o final do ano para ampliar a discussão sobre esse tema e definir novas regras brasileiras de rotulagem nutricional.

Em uma escala maior, o movimento aponta que a responsabilidade pelo excesso de peso não pode ser atribuída apenas ao indivíduo, por não praticar atividade física e consumir calorias em excesso. Mas se justifica principalmente pela existência de um ambiente que estimula o consumo excessivo de produtos não saudáveis por meio de publicidade massiva e rótulos atrativos, porém enganosos. Segundo Ana Paula Bortoletto, líder do Programa de Alimentação Saudável do Idec, estudos recentes indicam que a obesidade e as doenças ocasionadas pelo excesso de peso estão entre os problemas de saúde mais graves do Brasil.

“Em pesquisa realizada para a campanha, os entrevistados ficaram surpresos ao serem informados sobre a quantidade de açúcares, gorduras e sódio presentes nos produtos exemplificados e em tantos outros anunciados como saudáveis. Para alguns, as informações foram novidade, o que demonstra a falta de informações claras sobre o que é comum na alimentação de muitas pessoas”, comenta a especialista.

Por meio do slogan “Você tem o direito de saber o que come”, o público é convocado a cobrar políticas públicas para o aprimoramento da rotulagem de produtos ultraprocessados e destaca a importância do acesso à informação clara e adequada para escolhas alimentares mais saudáveis. Além da TV, a campanha será veiculada através de peças para rádio e para mídias impressa e digital.

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