Guido Girardi defende o acesso à informação para escolhas alimentares saudáveis

De acordo com o senador do Chile, a indústria de alimentos utiliza a publicidade para esconder
os riscos à saúde trazidos pelo consumo de produtos ultraprocessados

Com o objetivo de conhecer experiências positivas no enfrentamento da epidemia da obesidade, conversamos com o senador chileno Guido Girardi, autor da lei de rotulagem nutricional do país, iniciativa modelo na região das Américas. Nesta entrevista, Girardi fala sobre os perigos e estratégias da publicidade de alimentos ultraprocessados, que tem como principais vítimas as crianças, e destaca a importância do direito a saber o que se come para que possam ser feitas escolhas alimentares mais saudáveis e conscientes.

Guido esteve no Brasil durante o seminário sobre Fatores de risco de DCNTs (Doenças Crônicas Não Transmissíveis) e Educação, no Senado Federal.

Guido Girardi é médico e senador do Chile, especialista em temas de saúde pública, meio ambiente, ciência e tecnologia. Atualmente é presidente das comissões de Saúde e Desafios do Futuro do Senado chileno.

Quais são os principais desafios de saúde em países como Chile e Brasil?

Guido Girardi: São as Doenças Crônicas Não Transmissíveis, que têm a complacência das instâncias globais para seguirem, pois aceitam algo que é mais transmissível que todos, que se comunica a partir do que se chama propaganda ou transmissão cultural, muito mais poderosa que a transmissão biológica, dos genes, muito mais agressiva, violenta, que têm como vítimas principais as crianças. Os vírus e bactérias são mais empáticos, funcionam de acordo com um equilíbrio. A publicidade, por outro lado, é feita para violentar e conseguir fazer com que as pessoas tenham condutas que são danosas para elas, como comer comida ultraprocessada. Para mim, parece muito grave eticamente que a publicidade seja um instrumento para fazer com que as pessoas tenham condutas e hábitos prejudiciais.

O Chile lidera a lista de mais alta prevalência de tabagismo no mundo. Como lidaram com este fato?

Guido Girardi: São 43% de adultos fumantes, cerca de 38% com menos de 18 anos. Morrem 46 pessoas por dia por tabaco, 16 mil pessoas ao ano e por isso é  evidente que nenhuma arrecadação é capaz de pagar os custos. Estamos trabalhando desde 1995 no controle do tabagismo, e o lobby da indústria do tabaco continua poderosíssimo. Aprendemos que assim que se encerra um processo legislativo, se apresenta uma nova lei.

Qual a diferença entre implementar leis de controle do tabaco e de regulação de comida ultraprocessada?

Guido Girardi: Para mim, tabaco e comida industrializada têm a mesma dimensão: ambos são drogas – a nicotina, o açúcar e o sal são drogas que geram dopamina. Durante milhares de anos, nossos ancestrais, para sobreviver, buscaram sal e açúcar e repetiram algumas ações para garantir a continuidade da vida. São momentos de satisfação muito pequenos, porque a dopamina chega em períodos curtos, para que se repitam. É assim quando se come sal e açúcar, é assim quando se fuma um cigarro.

Como o senhor vê o consumo de tabaco e de produtos ultraprocessados?

Guido Girardi: Tabaco e comida ultraprocessada são transformados em fatores emocionais. As pessoas não comem alimentos, consomem marcas, status. É um modelo de pertencer a esta  sociedade, satisfazer outros aspectos da vida. O consumo também de tabaco e alimentos te dá um determinado status, dá um sentido, porque as marcas representam as aspirações, e isso afeta principalmente aos jovens. No fundo, podemos entender a marca com o sentido de pertencimento.

O tabaco e a comida ultraprocessada têm o mesmo papel, todos são drogas, em maior ou menor quantidade. O que essas indústrias vendem é uma droga, uma satisfação emocional que gera dependência.

As empresas usam as mesmas estratégias para vender seus produtos?

Guido Girardi: A estratégia que usam é a mesma. Primeiro, não há um direito à informação.Uma empresa sabe que vende tabaco ou um alimento que é lixo. Além disso, a diferença em relação ao tabaco é que o alimento vem com um rótulo incompreensível, que permite embalar o produto de forma que parece saudável, quando na verdade é embalar lixo. É uma grande simetria: sabe-se que um cereal da Nestlé ou Kellog’s têm 40% de açúcar, e podem ter até 600 mg de sal, e as empresas ficam mostrando na embalagem e na propaganda espiga de trigo, crianças correndo, um estilo de vida saudável. Há uma simetria nessa lógica que viola o direito fundamental, que é o direito a saber. Além disso, a comida ultraprocessada só é vendida pela publicidade. Se não há publicidade, não se vende, porque as crianças, ao vê-las na televisão, estabelecem o sentido de pertencimento ao obter o produto.

A publicidade continua permitida no Chile, depois das reformas em relação à rotulagem?

Guido Girardi: A publicidade é permitida e as crianças veem cerca de 4800 anúncios de comida ultraprocessada ao ano, porque os pais não estão conscientes disso. É por isso que esse tipo de marketing é uma violação ao direito humano. Tenho dito que essas empresas são abusadoras de crianças.

Como foi o processo para aprovar uma lei de rotulagem de ultraprocessados que se tornou marco para outros países, inclusive o Brasil?

Guido Girardi: Nós fizemos uma lei porque o país tem alto consumo de comida ultraprocessada. É a  prevalência mais alta do planeta de obesidade de crianças até seis anos de idade –  25% são obesos aos seis anos e a metade tem sobrepeso. Este fato faz com que 10% destas crianças sofram de pressão alta, 30% tenham colesterol alto, e a metade seja diabética ou resistente à insulina. Isto é uma catástrofe, e por que as crianças estão consumindo comida ultraprocessada? Primeiro, porque os pais não sabem que fazem mal, segundo porque a publicidade é muito agressiva, e terceiro porque é dirigida para as crianças, com jogos, brinquedos, vendidos e ofertados juntos com essas comidas.

Fizemos uma lei que, primeiro, abrange um direito fundamental, que é o direito a saber. Apresentamos um projeto de lei e promovemos uma pesquisa de grupo focal em 2013 para ver qual tipo de rotulagem cumpriria melhor seu objetivo, porque queríamos que fosse compreendida por crianças de cinco, seis anos. Inicialmente tínhamos pensado em rotulagem semáforo (verde, vermelho e amarelo, de acordo com a quantidade de substâncias nocivas à saúde), a qual as empresas de alimentos se opuseram. Com o grupo focal, vimos que a rotulagem usando selo preto de advertência é mais compreensível para as crianças.

Na tramitação do projeto, houve um lobby pesado, as empresas ameaçaram com desemprego em massa para todo o setor de alimentos e acabamos retirando a rotulagem de semáforo e introduzindo o selo. Então, a indústria de alimentos quis voltar ao semáforo, mas já tínhamos a retirado do projeto de lei.

O que diz a lei aprovada?

Guido Girardi: A lei de rotulagem é um sistema, o produto pode ter um ou os quatro selos: alto em açúcar, alto em calorias, alto em gordura, alto em sal. Basta ter um selo para que não possa ter publicidade para crianças das seis da manhã às oito da noite, e as empresas não podem dar brindes nem vender em escolas.

Quais os próximos passos?

Guido Girardi: Agora, estamos trabalhando para impostos mais altos de produtos ultraprocessados e para que não haja nenhuma compra pública de alimentos que tenham selo, nem para órgãos do governo e hospitais.

As empresas precisam entender que não podem vender lixo com a cumplicidade das autoridades públicas, têm que vender alimentos saudáveis e então podem voltar a  fazer publicidade, não podem vender em colégios. É um incentivo para que as empresas reformulem seus produtos e comecem a vender alimentos saudáveis.

Todo mundo precisa saber que as doenças que mais matam são obesidade, hipertensão, câncer, acidente vascular, diabetes e não se pode manter essa cumplicidade.

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