Semáforo nutricional traz mais complicações do que avanços para alimentação

Nutricionista Ana Carolina Fernandes, do Nuppre – UFSC, avalia propostas de rotulagem nutricional
apresentada pelo Idec à Anvisa e critica modelo defendido pela indústria

Com o intuito de promover escolhas mais saudáveis, o Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) apresentou à Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) um novo modelo de rotulagem nutricional. A proposta, que conta com o apoio da Aliança, envolve alertas na parte frontal da embalagem, além de melhorias na tabela nutricional e na lista de ingredientes.

Para avaliar as mudanças sugeridas, conversamos com a nutricionista Ana Carolina Fernandes, professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina) e pesquisadora do Nuppre (Núcleo de Pesquisa de Nutrição em Produção de Refeições), que faz parte da Aliança.

Nesta entrevista, Fernandes fala da importância das mudanças propostas pelo Idec e faz críticas ao semáforo nutricional, modelo que vem sendo defendido pela indústria de alimentos. Em sua avaliação, o semáforo traz mais complicações do que avanços em relação à informação para o consumidor.

Ana Carolina Fernandes é mestre e doutora em nutrição, professora do Departamento de Nutrição e do Programa de Pós-graduação em Nutrição e pesquisadora do Nuppre (Núcleo de Pesquisa de Nutrição em Produção de Refeições) da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Atua em ensino e pesquisa na área de alimentação coletiva, principalmente com informação nutricional em restaurantes, rotulagem de alimentos e escolhas alimentares saudáveis.

Quais vantagens você vê no modelo de rotulagem frontal elaborado pelo Idec em parceria com a UFPR em relação ao semáforo nutricional, que vem sendo defendido pela indústria de alimentos junto à Anvisa?

Ana Carolina Fernandes: Estudos já demonstram que o modelo de semáforo depende de interpretação do consumidor, demanda mais tempo para compreensão quando comparado ao de alertas e pode confundi-lo quando há combinações diferentes. Por exemplo: três alertas amarelos são melhor ou pior do que um verde, um amarelo e um vermelho?

O que é ainda mais preocupante no modelo da indústria é que a informação é dada por porção, e os parâmetros para definir cada cor do semáforo são baseados em faixas de valores absolutos por porção, não em conteúdo relativo. Por exemplo, qualquer alimento cuja porção seja menor ou igual a 100g e que tenha entre 5g e 13,5 g de açúcar na porção leva a cor amarela. Assim, pode haver alimento com porção de 15g contendo 90% de açúcar (13,5g) e outro com porção de 100g contendo 6% de açúcar (6g), e ambos serão caracterizados como moderados em açúcar. Ainda, o fato de a informação ser dada por porção dificulta a comparação entre alimentos com porções diferentes. Portanto, o modelo parece trazer mais complicações do que avanços.

Já o modelo do Idec traz alertas quando há presença ou excesso de nutrientes e ingredientes associados a prejuízos para a saúde. A informação é simples, clara, direta e não demanda cálculo ou interpretações do consumidor. Os alimentos a serem aplicados e os isentos de aplicação do modelo [in natura e ingredientes culinários], os nutrientes de alerta, bem como os parâmetros para utilizá-los vão ao encontro das recomendações da Opas (Organização Panamericana da Saúde) e do Guia Alimentar para a População Brasileira. O formato foi adaptado de um modelo já vigente no Chile após estudo da área de design da informação em saúde, com melhorias de contraste, forma e resolução, além de outras melhorias propostas para a tabela nutricional e a lista de ingredientes.

Em sua opinião, por que a indústria está defendendo o semáforo agora?

Ana Carolina Fernandes: A informação por porção e os parâmetros com valores fixos possibilitam que porções sejam reduzidas para haver alteração positiva na cor do semáforo. Já há estudos indicando que as porções referência [informadas nos rótulos dos produtos atualmente] são menores do que as consumidas pelos brasileiros e que a utilização de porções menores pode estar ocorrendo para incluir Informações Nutricionais Complementares [expressões positivas como “baixo em calorias”] ou declarar quantidades absolutas menores de nutrientes.

Ademais, o modelo da indústria só prevê informação sobre três nutrientes: gordura saturada, açúcar e sódio. Ao utilizar este modelo, há a possibilidade de redução de açúcar por meio da inclusão ou aumento de adoçante, o que não é desejável, visto que seu consumo tem sido recentemente associado a prejuízos à saúde semelhantes aos atribuídos ao excesso de açúcar, entre outros prejuízos adicionais – não é à toa que a Opas considera a presença de adoçantes em alimentos como um ponto negativo. O modelo proposto pela indústria também não prevê alerta sobre gordura trans, cujo consumo em qualquer quantidade é prejudicial à saúde. Assim, para que o alimento tenha níveis considerados baixos de gordura saturada, pode haver substituição de gordura saturada por gordura trans, que é pior – mas mais barata que outros tipos de gordura.

Quais vantagens você vê nas sugestões de mudança na lista de ingredientes defendidas pelo Idec?

Ana Carolina Fernandes: A lista de ingredientes é a principal informação da rotulagem de alimentos e a proposta do Idec traz mais destaque e legibilidade a ela. As sugestões para a lista de ingredientes facilitam a leitura e a identificação dos ingredientes. A sugestão de agrupar alguns ingredientes – colocar juntos todos os ingredientes fonte de açúcar de adição, por exemplo – facilita a identificação da composição do alimento, visto que a lista é declarada em ordem decrescente da proporção de ingredientes e que a

identificação é dificultada por haver várias fontes de um mesmo nutriente espalhados pela lista com nomenclaturas diferentes. Por exemplo, o açúcar de adição pode aparecer como maltodextrina, sacarose, xarope etc. em posições diferentes na lista.

Além disso, a declaração do número de ingredientes [no topo da lista] facilita a identificação de ultraprocessados, visto que geralmente esses produtos contêm muitos ingredientes, e que o Guia Alimentar recomenda evitar seu consumo.

E como você avalia as mudanças propostas para a tabela nutricional defendida na proposta apresentada pelo Idec?

Ana Carolina Fernandes: Primeiro, a nova proposta de tabela melhora muito a legibilidade. A inclusão da informação sobre açúcares é fundamental, visto que seu consumo em excesso está relacionado a doenças crônicas não transmissíveis e que atualmente não há declaração quantitativa obrigatória. O destaque em amarelo ao açúcar e ao sódio, outro nutriente crítico, direciona o olhar do consumidor às informações mais importantes, além de dialogar com as informações do painel frontal. A sugestão de trazer os valores de nutrientes por embalagem se aproxima mais da quantidade que a população realmente consome. E a inclusão da informação nutricional também por 100g é fundamental para possibilitar ao consumidor fazer comparação entre alimentos.

Você concorda com a proposta de que ingredientes culinários (sal, óleo,açúcar) não recebam os selos, mas levem avisos para consumo com moderação?

Ana Carolina Fernandes: O aviso corrobora a recomendação do Guia Alimentar de utilizar esses ingredientes com moderação. Acredito que seja a estratégia mais adequada, pois não faz sentido utilizar alertas em ingredientes culinários, visto que são utilizados por adição a preparações, não consumidos puros.

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