Pessoas ganham quentinhas distribuídas pela Marmitas da Terra no Paraná — Foto: Ednubia Ghisi e Regis Luís Cardoso via Fotos Públicas

“Nos últimos três meses, os moradores da sua casa ficaram sem dinheiro para ter uma alimentação saudável e variada?” A partir de perguntas como essa, feitas a quase 13 mil famílias brasileiras com crianças menores de 5 anos entre 2019 e 2020, o Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019) revela um cenário preocupante: quase metade delas (47,1%) vive em algum grau de insegurança alimentar. Os dados, inéditos no país, devem subsidiar políticas públicas que garantam a saúde e a segurança alimentar e nutricional das crianças brasileiras. Os relatórios técnicos podem ser acessados aqui e o webinar de lançamento do primeiro relatório está disponível no Youtube.

O coordenador do ENANI-2019, Gilberto Kac, explica que a pesquisa aplicou a Escala Brasileira de Insegurança Alimentar (EBIA) para classificar a situação das famílias em quatro níveis: segurança alimentar, quando não há preocupação sobre o que comer; insegurança alimentar leve, quando há incerteza sobre a disponibilidade de alimentos em quantidade ou qualidade adequadas em um futuro próximo; insegurança alimentar moderada, quando é necessário mudar o padrão alimentar da família em razão da falta de acesso a alimentos; e insegurança alimentar grave, quando há redução significativa da alimentação.

Os resultados mostram que mais de seis milhões de famílias brasileiras com crianças menores de 5 anos experimentavam algum grau de insegurança alimentar no período estudado. Dessas, 38,1% foram classificadas como insegurança alimentar leve, 5,2%, moderada e 3,8%, grave. Como a coleta de dados foi realizada antes da pandemia de Covid-19, avaliamos que a prevalência de insegurança alimentar pode ser ainda mais elevada”, alerta Kac, que é professor titular do Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Desigualdades

Kac destaca que os domicílios brasileiros com crianças menores de 5 anos apresentam marcantes padrões de desigualdades entre as macrorregiões do país. “As maiores prevalências de insegurança alimentar estão nas regiões Norte (61,4%) e Nordeste (59,7%) e os menores nas regiões Sul (36,8%), Centro-Oeste (38,9%) e Sudeste (39,3%). Análises de situação que incluam esses indicadores são necessárias para orientar ações e políticas de alimentação e nutrição que abordem de forma diferenciada as populações mais vulneráveis, na perspectiva da garantia da equidade”, informa o pesquisador.

O ENANI-2019 também aponta desigualdades no acesso a alimentos em quantidade e qualidade adequadas segundo raça/cor e o Indicador Econômico Nacional (IEN), um proxy da renda. “A prevalência de domicílios com crianças brasileiras menores de 5 anos com algum grau de insegurança alimentar foi de 40% entre as brancas, de 51,2% entre as pardas e de 58,3% entre as pretas. Em relação ao IEN, a maior prevalência de insegurança alimentar (53,8%) foi registrada nas famílias que compunham o primeiro quinto e as menores prevalências (31%) no quinto superior do IEN, que agrupa as famílias com maior poder aquisitivo. A prevalência de algum grau de insegurança alimentar foi de 61,4% entre as famílias que recebiam o benefício do Programa Bolsa Família no momento da coleta de dados e de 38,5% entre as que não recebiam nenhum benefício”, resume o pesquisador.

Sobre o ENANI-2019

O ENANI-2019 é a primeira pesquisa com representatividade nacional a avaliar, simultaneamente, em crianças menores de 5 anos, práticas de aleitamento materno, alimentação complementar e consumo alimentar individual, estado nutricional antropométrico e deficiências de micronutrientes, incluindo as deficiências de ferro e vitamina A. Foram realizadas visitas domiciliares em 123 municípios brasileiros entre fevereiro de 2019 e março de 2020, totalizando 14.558 crianças menores de 5 anos. O ENANI-2019 foi encomendado pelo Ministério da Saúde e coordenado pelo Instituto de Nutrição Josué de Castro da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em parceria com a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Universidade Federal Fluminense (UFF), com financiamento da Coordenação Geral de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

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