26/02/2026 - Blog Notícias

Da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável
As mudanças do clima ameaçam empurrar milhões de pessoas para a fome e a pobreza, revertendo décadas de avanços sociais. Os impactos da crise climática são sentidos de forma desproporcional por mulheres, negros e grupos vulnerabilizados, que precisam ser priorizados nas políticas de adaptação. Porém, embora sejam justamente os mais afetados pelos eventos climáticos extremos, os mais pobres e as pessoas vulnerabilizadas continuam sendo os que menos recebem apoio e recursos destinados ao financiamento climático.
Os números mostram que o Brasil ainda investe pouco na proteção direta dessas populações. Do total de R$185 bilhões previstos para ações climáticas no Plano Plurianual 2024–2027, apenas 12% são destinados à adaptação climática, segundo o estudo Encruzilhadas Climáticas, da Oxfam Brasil, publicado em outubro de 2025. Esse percentual é incompatível com a intensidade com que os desastres ambientais crescemao longo das décadas. O país tem enfrentado enchentes, ondas de calor, ciclones, secas e incêndios florestais cada vez mais frequentes e severos, ampliando os riscos para comunidades vulneráveis e comprometendo a produção e o acesso a alimentos. Os maiores impactos recaem sobre favelas, periferias, povos indígenas, quilombolas e comunidades ribeirinhas, que seguem expostos aos riscos e sem amparo adequado do Estado.
Ao mesmo tempo, 62% dos recursos do financiamento climático brasileiro estão concentrados em ações de mitigação nas áreas de indústria e energia, setores dominados por grandes empresas que possuem capacidade financeira e tecnológica para lidar com parte dos impactos que causam. A concentração de dinheiro público nesses setores reforça desigualdades históricas e distancia o país da construção de uma transição que seja, de fato, justa. A priorização das grandes corporações nessa alocação de recursos, no lugar das comunidades mais afetadas, contraria o princípio de que políticas climáticas devem reduzir desigualdades.
A adaptação é uma etapa essencial para proteger vidas e territórios. Ela não apenas reduz os danos diretos causados por eventos climáticos extremos, como também responde aos efeitos das mudanças do clima nos sistemas alimentares. A elevação da temperatura global e os eventos climáticos extremos comprometem a produção de alimentos e dificultam o acesso das populações vulneráveis a uma alimentação adequada e saudável. Sem adaptação, aumenta a insegurança alimentar e a garantia do direito humano à alimentação adequada e saudável fica ainda mais distante.
Democratizar o acesso ao financiamento climático significa enfrentar estruturas coloniais de poder e territorializar os recursos. As populações diretamente afetadas precisam ter participação ativa nas decisões e garantir que o dinheiro chegue às comunidades que estão na linha de frente da crise. Sem enfrentar o racismo ambiental, a concentração de terras e o poder dos lobbies econômicos que influenciam a agenda nacional, a transição permanecerá elitista e excludente.
A COP30 representou uma oportunidade histórica para redefinir prioridades e disputar o destino do financiamento climático. Mas só vamos conseguir transformar o cenário com vontade política para enfrentar interesses de grandes corporações e do agronegócio, revisar estratégias de investimento e garantir que os compromissos assumidos se transformem em políticas públicas concretas e eficazes.
Nós, da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, seguimos acompanhando essa pauta para defender que a justiça climática e o direito à alimentação deixem de ser apenas intenções e passem a se concretizar. Só haverá futuro possível se o financiamento climático for instrumento de proteção, reparação e equidade.
Referência:
Oxfam Brasil. Encruzilhada Climática. Um retrato das Desigualdades Brasileiras, outubro, 2025. https://www.oxfam.org.br/wp-content/uploads/2025/10/RESUMO-EXECUTIVO_Encruzilhada-Climatica.pdf
