Como a crise climática afeta o acesso à comida
Eventos extremos afetam diversas culturas alimentícias ao redor do mundo, que enfrentam quedas na produtividade, levando a um impacto direto no preço (Fotos: Wirestock/Freepik)

Café, azeite, milho, trigo, soja… A crise climática já está afetando diretamente diversas culturas alimentícias ao redor do mundo, que enfrentam quedas na produtividade, levando a um impacto direto no preço para nós, consumidores. 

Em outras palavras, a crise climática afeta o acesso à comida, especialmente, em países que já passam por cenários econômicos e sociais mais desafiadores. 

Nas regiões tropicais, onde muitas culturas alimentícias já estão em risco, a redução da produção, normalmente provocada por eventos climáticos extremos, e o aumento dos preços dificultam o acesso a alimentos básicos, forçando as famílias a substituir alimentos in natura por ultraprocessados.

Um estudo da Administração Nacional da Aeronáutica e Espaço (Nasa) prevê que a produção de milho pode cair até 24% até 2030, em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa (GEE), afetando milhões de pessoas que dependem desse alimento essencial. 

Segundo o Observatório do Clima, os sistemas alimentares são responsáveis por 21% a 37% das emissões globais de GEE. Houve um aumento de emissões de 16% entre 1990 e 2019. 

No Brasil, 73,7% das emissões de CO2 em 2021 vieram de sistemas alimentares, sendo que 78% desse total é oriundo diretamente da produção de bovinos de corte, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG). 

Falando em emissões de CO2, como o verão de 2023 foi o mais quente da história, isso afetou diretamente o Mediterrâneo, onde a Espanha, maior produtora de azeite no mundo, enfrentou uma quebra da safra de azeitonas, o que elevou o preço do produto ao redor do globo. 

E o café? 

Em janeiro de 2025, o preço do café atingiu um recorde histórico, com a saca de 60 quilos do arábica, principal tipo produzido no Brasil, sendo comercializada por R$ 2.333, segundo reportagem do portal Nexo

Esse é o maior valor registrado desde o início da série histórica do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Universidade de São Paulo (USP). Na comparação com janeiro de 2024, o valor teve alta de 124,6%. 

Os fatores por trás da disparada de preço não são mais segredo: baixo volume de estoques de grãos, em razão do aumento da demanda externa e das adversidades climáticas. 

O Brasil ainda é o maior produtor mundial de café. No ano passado, enfrentamos a pior seca em 70 anos, com ondas de calor que vêm afetando o ciclo de produção entre 2023 e 2024. 

A crise climática afetou também outros grandes produtores de café, como o Vietnã, o que contribuiu para a queda global na oferta. Por consequência, houve maior procura pelos grãos brasileiros, com recorde de exportações em 2024: 50,4 milhões de sacas, 28% a mais do que em 2023. 

Por outro lado, esse cenário faz subir o preço do café para os consumidores brasileiros. 

Nós, da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável, defendemos que o Direito Humano à Alimentação Adequada (DHAA) é fundamental para garantir a todas as pessoas o acesso a uma alimentação de qualidade. 

Então, enfrentar a crise climática é também enfrentar as desigualdades globais que ela amplifica, uma vez que seus impactos são muito mais intensos para populações mais pobres e países menos desenvolvidos. 

Eventos climáticos extremos não apenas afetam a produção e o acesso à comida, como também aumentam a vulnerabilidade econômica e a desigualdade social, provocam questões de saúde, deixam os recursos ainda mais escassos e forçam movimentações migratórias. 

Precisamos de mudanças urgentes nos sistemas alimentares, com esforços coordenados e políticas públicas, para ajudar a combater as alterações climáticas.

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