É possível produzir comida pra todo mundo sem destruir o planeta?
Esta é uma das principais questões em disputa atualmente quando se fala de sistemas alimentares e crise climática

Da Aliança pela Alimentação Adequada e Saudável

Transição justa: esse processo, e a definição de como ele será, é uma das principais preocupações em relação às discussões sobre o clima. Ainda com muitos debates em torno do significado da transição justa e de como ela será aplicada, podemos resumir que ela é, idealmente,  a mudança para um modelo econômico e alimentar sustentável, que garanta justiça social, equidade e conservação ao meio ambiente, seja livre de conflitos de interesse e valorize os saberes tradicionais. E dentro desses debates está incluído o tema dos sistemas alimentares.

Considerando o que seria a “transição justa ideal”, há propostas que defendem que essa transição seja baseada em modelos sustentáveis e inclusivos, que priorizam a agroecologia, a agricultura familiar e o fortalecimento das comunidades tradicionais. Esses caminhos apontam para uma mudança estrutural, voltada à redistribuição de recursos, à redução das desigualdades e à promoção da soberania alimentar.

Por outro lado, persistem pressões por manter os modelos industriais e concentradores que historicamente dominam os fluxos de financiamento climático. Esses modelos, que consideram a “transição justa” apenas para grandes atores econômicos, tendem a reproduzir desigualdades, favorecer grandes corporações e excluir atores locais dos processos decisórios e dos benefícios econômicos da transição.

Assim, há o risco de que a transição justa se torne apenas uma narrativa esvaziada de compromisso político real. Uma transição que não enfrenta as desigualdades estruturais, não redistribui poder e recursos, e não assegura participação social, não pode ser considerada justa.

No caso dos sistemas alimentares, o debate é particularmente sensível. Hoje, a forma como a maior parte dos alimentos é produzida no mundo contribui fortemente para a crise climática. Esse modelo dominante depende do desmatamento de florestas nativas para abrir espaço para pastagens e grandes plantações de poucas culturas (como soja, milho, cana e trigo, por exemplo), além de usar grandes quantidades de agrotóxicos. Esse tipo de produção é responsável por mais de um terço das emissões globais de gases que agravam o aquecimento do planeta. Para mudar esse cenário, é preciso transformar profundamente nossos sistemas alimentares, com foco em garantir o direito à alimentação, proteger o meio ambiente e promover a saúde das pessoas.

Assegurar uma verdadeira transição justa significa transformar profundamente os sistemas alimentares, enfrentando práticas que geram desmatamento, expropriação de recursos naturais e exclusão social. Isso exige priorizar modelos sustentáveis e socialmente justos, que promovam renda digna, respeitem o meio ambiente e assegurem o Direito Humano à Alimentação Adequada.

Referência:
–  FAO. Sistemas alimentares são responsáveis por mais de um terço das emissões globais de gases de efeito estufa. Nações Unidas, Brasil, 2021. https://brasil.un.org/pt-br/115817-sistemas-alimentares-s%C3%A3o-respons%C3%A1veis-por-mais-de-um-ter%C3%A7o-das-emiss%C3%B5es-globais-de-gases-de

 

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